Método
Como avaliamos um estudo.
O cartão de veredito que abre cada análise só tem valor se os critérios forem públicos. Estes são os nossos — e são aplicados igualmente a resultados favoráveis e desfavoráveis.
As seis etapas da leitura
01
Desenho e pergunta
Identificamos que pergunta o estudo faz e com qual desenho. Ensaio randomizado, coorte, braço único, revisão sistemática, estudo in vitro — a resposta define o teto do que o estudo pode concluir, antes de qualquer leitura de resultado.
02
Desfecho primário
Localizamos o desfecho primário declarado antes do início do estudo. É ele que define a conclusão. Desfecho secundário gera hipótese — e não substitui o primário quando este é negativo.
03
Comparador e cegamento
Verificamos se existe grupo controle, se houve randomização e se houve cegamento. Em desfechos subjetivos — dor, função, qualidade de vida — a ausência de cegamento pode explicar boa parte do efeito observado.
04
Magnitude e precisão
Lemos a magnitude do efeito e o intervalo de confiança, não apenas o valor de P. Um resultado estatisticamente significativo pode ser clinicamente irrelevante, e um intervalo que atravessa o zero muda toda a interpretação.
05
O que não permite concluir
Seção obrigatória de toda análise Blastema. Aqui listamos as inferências que o desenho do estudo não sustenta — mesmo quando o resumo do artigo sugere o contrário.
06
Aplicabilidade
Perguntamos se o paciente do estudo é o paciente real, se a intervenção está disponível e se está regulatoriamente autorizada no Brasil. Estudo elegante sobre intervenção indisponível não muda conduta.
Nível de evidência
Usamos a escala Oxford CEBM. Ela descreve o desenho do estudo — e, portanto, o teto do que ele pode concluir.
Confiança GRADE
Separamos nível de evidência de confiança na estimativa. São perguntas diferentes: uma é sobre o desenho, a outra sobre o quanto podemos acreditar no número.
Alta
É muito provável que o efeito real esteja próximo do estimado.
Moderada
É provável que o efeito real esteja próximo, mas há possibilidade de diferença relevante.
Baixa
A confiança no efeito estimado é limitada; o efeito real pode ser substancialmente diferente.
Muito baixa
A confiança no efeito estimado é muito limitada; o efeito real provavelmente é substancialmente diferente.
Três regras que não negociamos
O desfecho primário define a conclusão
Quando o primário é negativo e os secundários são positivos, o resultado do estudo é negativo. Publicamos assim, mesmo quando o achado secundário renderia uma manchete melhor.
Nível de evidência não é nota de qualidade
Um ensaio de braço único bem conduzido recebe nível 4 para eficácia. Isso não é uma crítica à execução — é uma descrição honesta do que o desenho permite afirmar.
Resultado negativo é publicado com o mesmo cuidado
Um desenho robusto que não encontra efeito é informação de alta qualidade. Tratá-lo como fracasso editorial é o que transforma divulgação científica em publicidade.
Toda análise declara financiamento do estudo, conflitos de interesse do autor da análise e o que foi lido na íntegra e o que foi lido em parte. Quando o texto completo está sob assinatura, isso é dito explicitamente no próprio artigo.
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